sexta-feira, 16 de maio de 2014

FIM...

O dia começou e só de lembrar o que acontecerá eu já me emociono

ACABOU. Fim das sessões de Herceptin! 
Os dias de risadas e cochilos no AC. Camargo chegam ao fim!
Sentirei saudade deste dia de descanso,
Dos cuidados das enfermeiras,
Das conversas malucas que insistia em ter dopada...

Hoje faço a última aplicação, e só de pensar o coração acelera.
Fim de mais uma etapa do tratamento. 
Cada vez mais eu me distancio dos medicamentos.
Da rotina do hospital.
Mas fica a saudade de todos aqueles que cuidaram de mim lá dentro. 

...
...
...

Ainda nem sai de casa... E já estou emotiva e sensível em saber que hoje será uma despedida.
Não apenas da equipe da enfermagem, mas de um ciclo de medicações,
De sexta-feiras dopadas, de dias aparentemente "perdidos".

Um post incompleto, com palavras engasgadas, com um choro contido,
Mas com palavras repletas de esperança! 


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Inquieta Razão em movimento...

Inquieta Razão é um trabalho inspirado nas Quatro Estações do ano como fases vivenciadas pela própria bailarina no processo de cura de um diagnóstico de Câncer de Mama. A escolha de dançar sua dor é uma forma de despertar de um sono profundo, que a fez entrar em colapso e desordenadamente células se multiplicaram ameaçando sua existência. É a partir dos quatro elementos que o movimento da vida pulsa novamente, levando para cena suas próprias lembranças revividas em seu corpo, pois o que sentiu jamais será esquecido. 


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Contínua...


Eu que pensei que estivesse entregue a isso tudo,
Vejo que não, hesito.
Um escorregão e eu chego a duvidar do que a vida tem para me oferecer.
Os fantasmas da doença me fazem questionar a vida, a cura, e até Deus.
Chego a pensar friamente no fim...
Um susto... Um sinal de alerta... Um recomeço...
Talvez preciso aprender com as leoas a usar meu instinto de proteção,
Reagir as adversidades da vida com mais força e coragem.
Não permitir que me ataquem, e que façam comigo aquilo que querem!
A menina frágil e amedrontada ainda mora dentro de mim,
E de vez em quando, cisma em aparecer.
Talvez precise de uma dose de loucura para fazer acontecer aquilo que desejo...
Quem sabe devo me lançar nos abismos...
Afinal, o que são os abismos, se não buracos vazios, cheios de possibilidades.
Pois é neste vazio que pretendo me lançar...
Com a coragem de uma leoa...
E a sutileza de um pássaro...

“Oh I've finally decided my future lies
Beyond the yellow brick road



Essa poesia chegou até mim hoje, e sincronicamente diz o que desejo...


"Apenas danço. 
Instinto seria um bom motivo
Danço ao som do seu sorriso
Uma dança pagã aritmada 
Entre as elipses de suas formas
Arrefecido e febril eu danço
Insanidade seria um bom motivo
Pra saltar os precipícios adiante
Tomar impulso e partir
Retirar as vendas em queda livre
E sentir prazer ao cair
Sobrevivência um justo motivo
Para estar nu diante dos inquisidores
Sorrir apenas, sem intenções pensadas,
Cantar porque é vital
Ou seria medo o tal motivo?
Da solidão ensimesmada e presente
De me abandonar diante do espelho
De me confundir com alguém que nem conheço
Um motivo triste seria a fome
Seria biológico e rígido demais
Apenas o cumprimento de um ciclo 
Encerrando numa noite fria
Penso por que eu danço 
Ao som do seu sorriso 
Por que me queima essa febre 
E na ignorância pura dos infantes 
Alucinadamente e dopado eu danço
E faço do amor o meu maior motivo." 
Vladimir Wingler



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Inquieta Razão em movimento

Voltando a vida, ao movimento, a cena, a entrega cotidiana a arte que me motiva a viver... Dançar!

Apresento o solo  "Inquieta Razão" na Mostra de Intérpretes-criadores no Núcleo Pedro Costa! Trabalho inspirado nos textos do blog e em toda vivência no processo de cura do Câncer de Mama!




segunda-feira, 24 de março de 2014

Costurando a vida...





E mais de um ano se passou, já não tem mais o medo e a angústia, incômodos e aflições... Agora a vida se renova a cada amanhecer... E tudo parece ser apenas uma lembrança...

Aqueles dias ficarão pra sempre em minha memória, em meu coração, e em meu corpo... As marcas continuarão existindo, uma lembrança viva de tudo o que passei.

Tudo parece uma lembrança, mas nem sempre é... Quando penso que isso tudo está no passado, eu me engano... É como se ainda, uma aflição muito grande tomasse conta de mim, uma dor imensa... Não pelo que foi, mas pelo que poderia ter sido. É inevitável não pensar que eu poderia não ter descoberto a tempo de me curar, eu me pego pensando o que poderia ter acontecido... Eu sei o que poderia ter acontecido... Morte! E isso não é assustador... É real! Me obriga a valorizar cada segundo da minha existência.

Eu lembro dos dias que queria muito sair, e não podia... Ou não conseguia. Lembro de ver os dias passando pela janela do quarto... E agora sempre que sinto vontade de resmungar, eu também sinto a tristeza daqueles dias, o desejo que tinha de sair correndo pela rua, de dançar até cair, de ver gente,... É essa vontade que hoje silencia qualquer inquietação ou reclamação do meu dia.

Agora os medos são outros, as angustias também... Mudaram os incômodos e as aflições... Como um ciclo... Mas nada comparado a dor de ver minha vida ameaçada. Eu sinto que fiz uma passagem... Muitas coisas mudaram em meu jeito de Ser... O que me faz encarar decepções, problemas, tristezas, incômodos, de uma forma mais clara e menos sofrida. Parece que escuridão maior do que os dias que tive, não existirão. 

A vida se renova,... Eu mudei, é inevitável que mude também o que me cerca... Isso me levou a mudar de trabalho... Mudar de planos... Tive que mudar o percurso. E coisas sempre ficam para trás, faz parte abandonar malas, talvez as pegue em algum outro momento, talvez fique onde estão...

É assim, caminhando em minha própria direção... Sigo em frente, passo a passo, sem esquecer que enquanto um pé está no futuro, o outro ainda está no passado, e no meio deles, em uma fração de segundo eu estou no presente, plena e viva dançando a música do meu coração.

"Costura da vida" 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Recomeçar...

“Mas aí, sem que se saiba por que, a gota de chuva cai, o vento se vai, e ficamos de mãos vazias. E só nos resta esperar. Como esperamos que o ipê floresça de novo.” Rubem Alves

Há um pouco mais de 1 ano atrás em perambulava pelas ruas do centro de Diadema, perdida, assustada, triste e ansiosa... Após fazer o primeiro exame, que deveria ser simplesmente de rotina foi como um soco na boca do estômago, apenas pela pergunta “Tem caso de Câncer na família?”... Eu entendi o que ela queria dizer com aquela pergunta, mas confesso que não queria acreditar que poderia ser possível estar com Câncer. Até então ninguém sabia que eu estava fazendo estes exames, sai da clinica e andei sem paradeiro... Chorava desesperada só de pensar nessa possibilidade, e comecei a imaginar como avisar isso a minha família.

Eu morava sozinha e há muitos anos não dava satisfação a ninguém, e de repente me vi como uma criança perdida buscando os braços nos pais carinho e proteção. E no dia 3 de dezembro, quando recebi o diagnóstico vi não só o meu mundo desabar, mas de toda a minha família… Meu pai adoeceu, sei que meu irmão Diogo só chorava, o Tiago sempre animado (mas creio que dentro dele uma tristeza imensa) minha mãe se fazia de forte (provável que a mais forte de todos, o que me surpreendeu), a Nina pouco entendia… E meus amigos? Estavam por perto!

E assim eu comecei o ano de 2013, em plena tempestade, sabendo que seria um ano difícil. Mas registrei em minha memória os bons momentos, foi o ano em que mais estive com a minha família, com os meus amigos, viajei muito, fiz passeios incríveis, dei muita risada, mas não posso negar que foi doloroso e sofrido…

Hoje antes de sair de casa passei protetor solar, o mesmo que usava durante a quimioterapia, e um choro incontrolável aconteceu… Em segundos eu revivi a angustia do tratamento, meu corpo enfraquecido, assustado com tanta química,  senti as dores na cabeça, no estômago, no corpo e na alma… O desespero de querer reagir e não conseguir… Sei que tudo isso ficou pra trás, mas hoje percebi que essas lembranças me acompanharam por um bom tempo. Estas lembranças talvez sirvam para me lembrar do que aprendi…

Sabe o que quero de verdade?Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Por que sem ela, não poderia mais sentir a mim mesma.”  Clarice Lispector 

Creio que minha vontade de viver, pode ter mudado meu destino. Eu hoje andava pelas ruas do centro de Diadema com um sorriso no rosto, feliz e grata, simplesmente por estar ali andando pelas mesmas ruas que há um ano eram escuras e frias. E parece bobagem, mas a sensação era “Não acredito que estou aqui, que um ano se passou, que o tratamento acabou, e que hoje vislumbro um novo e encantado amanhã, cheio de novas possibilidades, nova vida, novo emprego, novo namorado (rs), novos amigos, novo cabelo, novos planos e metas,…. 

Eu pretendo em breve fazer uma retrospectiva de fotos de 2013, algo que me lembre que 2013 eu não apenas sofri… Mas que também me ensinou a “amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, pois de fato não há… Me ensinou a cantar todos os dias pela manhã “ Eu agradeço, eu agradeço, eu agradeço, eu agradeço…”, simplesmente por acordar plena de saúde e ter em frente um dia pra se viver… Me ensinou a “fiar com” o mistério divino, que tudo sabe… Me ensinou a ter coragem, me falou sobre desapego, entrega, confiança, amizade e sobretudo sobre fé.


Eu pretendo não perder este sentimento que me emociona toda vez que me lembro de 2013… Eu sinto vontade de chorar, não de tristeza, mas de alegria por ter superado tudo e de ter uma nova chance para RECOMEÇAR!

Espetáculo 10 anos Associação Passo a Passo 21.12.13
Coreografia Recomeçar

" Não importa onde você parou... Em que momento da vida se cansou... O que importa é que sempre é possível e necessário RECOMEÇAR. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo... É renovar as esperanças na vida e o maiis importante... Acreditar em você de novo." Carlos Drummond de Andrade
Providencialmente, terminei o ano em cena com os meus alunos, inspirada pelas sábias palavras de Drummond. Registrei naquele momento o fim de um ciclo, e o início de um novo e belo Recomeçar!