sábado, 31 de agosto de 2013

Voltando...

Tão difícil quanto sair de cena é voltar... Me sinto perdida! Tudo, completamente tudo mudou... E por que mudou eu não sei bem o que fazer! Me acostumei com gentileza, amor, solidariedade e carinho... E de repente, cadê tudo isso?

Aos poucos estou saindo de casa e retomando as atividades. Sem obrigação de nada, apenas pelo puro prazer de voltar... Deixando para trás a cama, os remédios, as sensações ruins e retomando a vida com um novo olhar!

E este novo olhar, tem me assustado... Vejo o que não via, sinto o que não sentia... Atitudes egoístas, olhares ofensivos, julgamentos desnecessários, energias densas... Fico me perguntando o que as pessoas fizeram com o amor... Por que não olhamos nos olhos? Por que falamos tanto e fazemos tão pouco? O ser humano se distanciou tanto, aponto de se perder de si mesmo!

Não sabemos quem somos, o que fazemos, onde vamos,...
E é por isso que vamos indo, sendo consumido pelo tempo, pelo dinheiro, e pelas atitudes aflitivas que temos para nos salvar de tanta inquietação... Inquietas ações que só aumentam as aflições.

Estou voltando e não quero me perder... A minha mente tenta a todo instante me levar pra bem longe, ela quer me distrair com impulsos negativos e desesperançosos. Quer me entristecer, me faz chorar, e tenta me fazer perder as forças. E por enquanto estamos em conflito, ora ela vence, ora eu domino. Recebi tanto amor, vivi tantas alegrias e senti tanta gratidão... Que não posso me perder por aí, preciso crer no amor fraterno, na solidariedade, na compaixão, na amizade, e principalmente no cuidado... Cuidar de si mesmo, estar pleno, para cuidar do outro!


É por isso, que continuo cuidando de mim...

RTZB 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Prefiro dizer vida, ao invés de luto!

"Não basta existir, há que viver. Não basta viver, há que ser. Não basta ser, há que transparecer. Não basta transparecer, há que servir. E só então partir. Saciado de dias e de noites, de luzes e de sombras, de amores, tremores e louvores. Em paz, como um avô sorridente, descascando uma laranja para o seu netinho. Confiante, como uma criança inocente se jogando nos braços de sua mãe. É longa e paradoxal a caminhada de retorno à Morada da Essência, de onde jamais partimos..." Roberto Crema

Não sei se morte e vida são antônimos, mas sinto que caminham lado a lado... A existência de um valida a do outro. E se a morte me causa espanto, talvez a vida também... O que penso dela hoje? É uma possibilidade, como viver também é! Muitos vivem sem viver e outros morrem sem morrer, ficam livres em nossas lembranças e presentes em nossas quietudes.

E neste dueto de possibilidades, eu vi o Câncer dançar...

Um senhor me abordou na rua e sem rodeios veio logo perguntando “O Câncer também passou por você? Está curada?”, enquanto lhe respondia, seus olhos enchiam de lágrimas e por fim ele disse “Você me lembrou que devo comemorar meu aniversário, sofri tanto durante o tratamento de um Linfoma de Hodgkin, que prefiro esquecer, mas uns dias atrás fez um ano o transplante... Completei um ano de vida! Estou vivo e fico feliz em saber que também está.” Enxugou suas lágrimas e seguiu...

Hoje pela manhã, enquanto agradecia o dia e pediu pela cura de alguns amigos... Senti tristeza. Conheci por meio deste blog Viviane Peixoto, ela também estava em tratamento e certa vez me agradeceu por compartilhar minha história... O Câncer de Mama era comum a nós, conversamos muitas vezes sobre isso, trocamos dicas e afeto. Quando seu caso clínico se complicou, ela publicou um texto emocionante, dizendo da sua imensa vontade de viver, da força que encontrava nas dificuldades e sobre a certeza de sua cura.  Neste dia eu lhe escrevi agradecendo as palavras e dizendo que sentia grande afeto por ela, que lhe amava pela sua força e coragem, ela respondeu o mesmo. E então eu me lembro do Pequeno Príncipe:
...
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui - disse a raposa. - Que procuras?
- Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. - Que quer dizer "cativar"?
- Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
- Não - disse o príncipe. - Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...

Trecho de O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry



Sempre que alguém diz: “Estou orando por você”, eu peço para que estenda suas orações a todos os que necessitam de cura. Eu vivenciei o tratamento de Câncer e sei quão intensa e dolorida este processo pode ser, há de se ter fé e confiança, pois muitas vezes parece que estamos piores... A cura vem pela dor, pelos incômodos e pelo tempo que se dilata na espera pelo fim.

Hoje a espera de Vivi chegou ao fim, creio sim que foi curada e que este momento significa apenas uma passagem...

Morte e vida, possibilidades conjugadas pelos verbos, estar e passar... Que encontram sua unidade em SER. E assim também é o Câncer... Triste e emocionada pela passagem de Vivi, mas profundamente tocada e grata pela sua presença em minha vida.

Me resta dançar a vida, já que por aqui este tal de Câncer dançou!

RTZB

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Um final sempre é um novo começo...

Fim dos ciclos de quimioterapia, e com isso fim das sensações estranhas e malucas, das dores pelo corpo, do mau estar, e finalmente da eliminação do corticóide, que me fez engordar quase 10 kilos (rs)...

Este momento representa o fim de muitas outras dores, incômodos e frustrações, e tudo aquilo que não me serve mais com certeza vejo ficando para trás... E agora pelos meus cabelos vejo o novo nascer, e desejo sentir novamente a sensação de bem estar e saúde plena.

Rosas de Luiza Gentile.
Em cada sessão de quimioterapia, eu ganhava uma rosa de uma amiga e vê-la desabrochar ao longo dos dias, era como se a partir dela eu pudesse também adquirir a capacidade de desabrochar... E agora, no fim, ganhei a rosa que mais se abriu... Não vejo como um mero acaso... Nós nos abrimos juntas!

Na última sessão, o dia fluía como se algo mágico estivesse acontecendo... E estava! Eu tinha dentro de mim um desejo enorme de festejar e comemorar, de gritar, chorar e de estar próximo de quem esteve comigo estes meses todos... A única coisa que consegui pedir, foi para que a amiga que me levou na primeira sessão, me levasse na última... E desta forma eu daria por encerrada esta fase... “Missão dada é missão cumprida!” (rs)... Mas...

" Nenhum caminho é longo demais...
Quando um amigo nos acompanha..."
( My God is my Life) 
Eis que o inesperado acontece... Quando entro no quarto, deparo com as Jows... Mulheres “Jowtromundo”... Quase todas me acompanharam nas sessões de quimio, elas revezavam entre si e entre meus familiares... E neste último dia, estavam todas lá... Com bexigas coloridas e champagne... Era a festa que tanto queria... E foi o susto mais incrível que já tomei, e um dos momentos mais especiais de toda minha vida... Não só pela surpresa, mas por terem concretizado tudo o que estava sentindo... Alegria, gratidão, amor e muita união! Chorei de alegria, tremi igual vara verde e sentia meu coração saltando pela boca! (rs)...

Não só dançamos nos palcos da cidade, como também dançamos nos palcos da vida... E este foi o melhor espetáculo dos últimos tempos!

Enfim... Hoje me sinto mais leve, confiante e sem dúvida mais feliz... Vejo que ao longo destes meses deixei algumas malas no meio do caminho, embarquei em uma viagem sem destino...

Agora um novo ciclo se inicia... Seja bem vindo!

                                                                                                                                                                                                                                     RTZB

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Inesperado...

Houve um tempo em que eu programava cada segundo do dia... Me irritava acordar e não saber a ordem das coisas, ficava aflita! Eis que aparece o tratamento na minha vida, me lembrando, que não há planos ... O segundo seguinte foi e sempre será uma grande incógnita... Descobri que o dia é simplesmente um infinito imenso de possibilidades! E ultimamente tenho me entregue a este infinito, que na verdade é um grande vazio... Me sentindo plenamente em cada segundo do dia vou colhendo os bons frutos de cada instante... E descobri que é muito mais divertido não saber o que vai acontecer... Eu tenho obviamente alguns compromissos, e uma certa rotina estabelecida... Mas os buracos "vazios"  são os que colorem o dia! 

Templo Zu Lai
É se permitir encontrar um amigo no banco e ali ficar sem pensar nas horas... Receber um convite para um simples almoço e perceber que na verdade está indo passar a tarde em um Templo Budista belíssimo... Pular de alegria quando um amigo que praticamente mora do outro lado do mundo, quer lhe encontrar e você estar totalmente disponível pra isso... É receber visitas inesperadas, presentes coloridos, simbólicos e sagrados!

E então os buracos vazios são preenchidos assim... De forma surpreendente!


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Para quê?

Sinceramente não me interessa saber o por que eu recebi um diagnóstico de Câncer de Mama, eu sei da minha responsabilidade nisso, entendo que minhas atitudes e pensamentos promoveram isso em minha história, mas neste momento não quero saber o que me levou a viver isso... Também entendo que existem situações que temos que vivenciar nesta existência, pois um acordo fora feito antes de aqui chegar... Então senão há como fugir ou negar, há de viver em plenitude seja lá o que for!

 
Digo com isso, que hoje me interessa saber o que farei a partir de agora... Com todas as reflexões e mudanças, adquiri outros olhares, pensamentos, e até outras perspectivas. A questão é exatamente essa, o que fazer?

Os caminhos agora são outros, não posso crer que tudo será como antes... Pois não será! É disso que pretendo me ocupar neste momento, vislumbrar estes caminhos e construir uma nova trilha...


Um passo de cada vez, mas sempre avante!
RTZB
♫♪ Todos os Caminhos - Lenine ♫♪

"...Por tudo que eu andei
E o tanto que faltar
Não dá pra se prever nem o futuro
O escuro que se vê
Quem sabe pode iluminar
Os corações perdidos sobre o muro
E o certo que eu não sei o que virá
Só posso te pedir que nunca
Se leve tão a sério, nunca
Se deixe levar que a vida
A nossa vida passa 
E não há tempo pra desperdiçar..." 

domingo, 14 de julho de 2013

Luz...

Odeio sentir apatia... Odeio sentir a ausência da vontade... Odeio não sentir prazer... Odeio me ver jogada sentindo ausências e tristezas... Frustrações e desencantamentos... E quando isso acontece, meu único desejo é de fazer tudo sumir em instantes... Tudo se apagar para quem sabe clarear... E quando sinto um aperto no peito e um nó na garganta, é quando tudo transborda... E eu sinto a dor da angustia que me prende nesta apatia... Nula ação... E quase uma anulação de mim mesma... Uma negação dos sentimentos mais medíocres... E a não existência de ação... Eu espero tudo se apagar... Eu desejo que tudo se apague.


RTZB



quarta-feira, 10 de julho de 2013

Reencontrando...

Pois eu me rendi, depois de alguns dias fingindo estar bem... Me entreguei aos cuidados de uma boa cama, remédios e alguns bons filmes! Meus planos eram de voltar as atividades físicas, dançar, e retomar uma rotina cada vez mais distante de casa... Apenas me esqueci que planos são feitos para não darem certo, e cá estou... Me recuperando de um resfriado e uma sinusite, como diria meu pai "frescurite aguda". 

Não tenho me lembrado do Câncer, e quero cada dia mais me distanciar desta tormenta... E o fato de ver o fim do tratamento, me enche de vontade e desejo de voltar a ter uma rotina sem tantos cuidados e medos... Mas ver o fim, não significa estar no fim. E talvez essa seja a minha grande frutração hoje, me senti saudável e fiz planos... Que não se concretizaram.

Meu corpo novamente pediu quietude e repouso... E por mais que este não seja meu desejo eu lhe dei voz... E me aquietei. Alguns dias sob o cuidado e zelo de um bom chá quente, me farão bem. 

E por mais que paciência me falte, por mais que eu diga "não aguento mais", e implore o fim logo... Este momento é só parte de um longo e intenso processo de mudança. Aquisição de novos valores, novas metas, um jeito talvez dolorido de encontrar o caminho do meio e de quem sabe ser quem eu poderia ser.

Tenho me esquecido de agradecer... Quando vejo amigas em tratamentos tão mais doloridos que o meu e quando percebo meu egoísmo diante disso tudo... Me entristeço. Não devo me importar tanto assim comigo, acabo transformando um simples resfriado,  em uma sinusite, uma tosse barulhenta e uma voz afônica. 

Talvez eu queira chamar atenção de todos com o meu barulho, simplesmente para que olhem para mim... Pois nada consigo dizer. 


                                                                                                                                                                                                                                    RTZB

Em repouso... Em silêncio. Reencontrando a paz!