Há quem
diz que a
Dança é a arte do movimento. E a história evolutiva do Homem nos mostra que mover-se é inerente ao Ser Humano. Notamos que
estamos em movimento o tempo todo, dos ciclos da respiração, aos ciclos da lua.
Talvez, dançar seja simplesmente isso, um processo de reconhecer e perceber os
movimentos que nos cercam... Nos tocam... E nos fazem transcender.
Difícil é em tempos de caos, parar para
sentir. Podemos não querer parar, e tampouco não querer escutar. Não escutar as
fagulhas e murmúrios que a todo instante ele, o corpo, resmunga. Corpos fragmentados
imploram por ajuda.
O corpo não mente, e além disso ele conta
nossas histórias. Jean-Yves Leloup diz “O corpo é nossa memória mais arcaica.
Nele, nada é esquecido”. Todos os acontecimentos de nossa existência, da
infância a vida adulta ficam registrados em nosso corpo e deixam marcas
profundas, cada qual com um sentido há ser desvelado.
Como adentrar o universo particular? Para que
reconhecer as fragilidades e os limites? Aquiete-se, confie e adentre. Pode ser
surpreendente. Descobrem-se habilidades, ampliam-se as fronteiras dos limites,
e principalmente pode se tornar conscientemente responsável por suas escolhas.
Estruturados no Cartesianismo, podemos por
meio do movimento, resgatar a UNIDADE perdida no dualismo, corpo e mente. Sociedade
alienada, corpos desconectados, emoções anuladas. Essa é a herança que temos
hoje. Executamos o que todos executam, repetimos sem se quer saber por que e
sentimos o que mesmo?
Não temos mais tempo! Precisamos urgentemente
relembrar a harmonia presente nos movimentos cíclicos do nosso corpo, que
acontecem a todo instante dentro e fora de nós.
Estudos dizem que vamos ao longo da vida
criando em nosso corpo couraças de proteção, comportamentos enrijecidos e
consequentemente um corpo resistente, inflexível e sem vida. Costumo perguntar o
que acontece com uma poça d´água parada? Cria lodo e transmite doença. Pois é
essa, a imagem que tenho de um corpo que não se movimenta, a energia não
circula, gera desarmonia, desintegração e doença.
"Que
tudo que é pesado torne-se leve
Que todo corpo vire bailarino
Que todo espírito vire pássaro!"
0mar khayãm
Que todo corpo vire bailarino
Que todo espírito vire pássaro!"
0mar khayãm
É fácil encontrar por aí, quem houvesse um dia
tido o sonho de se tornar uma bailarina. Permitir-se ainda que tardiamente,
vivenciar este sonho, pode significar um encontro consigo mesmo, um resgate de
algo que se perdeu no tempo, em meio a tantas obrigações e fazeres de uma vida
corrida. Dizemos não ter tempo para nada, e quando vemos o tempo passou e
nossos desejos mais sinceros foram guardados, quase que escondidos em
compartimentos secretos. Se propor a resgatar este sonho pode desfazer a
angústia que muitas vezes o avanço da idade e a falta de mobilidade cria, ou
simplesmente pode trazer a alegria e o prazer que a movimento proporciona.
Aquele que inicia uma vivência com a dança,
realiza uma atividade física e artística, proporcionando a integração entre
razão e emoção, ampliando a percepção de si, do outro e do meio, estimulando a
imaginação e a criatividade, despertando a intuição e o sentir das emoções,
além de propor o reconhecimento de sua estrutura física por meio da consciência
corporal, o que gera aceitação de seu corpo como é, com suas qualidades e
limitações.
Tenho visto em sala de aula, mulheres de 30 a
70 anos se propondo a adentrar o universo da dança, com entrega e verdade. Cada
descoberta de movimento um sorriso largo no rosto, um olhar marejado, um abraço
apertado e um desafio cumprido.
Mulheres que passam a reconhecer o movimento
leve e sutil da respiração. Permitem pouco a pouco que o peso do corpo repouse no
solo. Corpo, morada, casa de abrigo e cuidado. Livres, os corpos se lançam em
aventuras pelo espaço, exploram a sutileza do feminino e a força do masculino.
Desabrocham. Criam elos entre os diferentes. Flertem seus joelhos reverenciando
a vida.
Posso perceber nos corpos que adentram a sala
de aula, um desejo desesperador de aquietar o corpo e silenciar as
preocupações. Buscam leveza e
flexibilidade, a princípio nos movimentos, mas percebem aos poucos que o pensamento
também dança, flutua, voa. Tudo é uma coisa só. A verdade de cada uma, passa a
ser expressada por movimentos que transbordam beleza e sutileza. Nenhum
movimento é em vão. Não se tem a pretensão de exibir virtuosismo técnico. O
único desejo: expressar em movimento o que as palavras não podem dizer.
Referência
- LELOUP, Jean Ives. “O corpo e seus símbolos.” – Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
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Alegria, paz... Me encontrando,
E rompendo barreiras,
E voando como um pássaro,
A procura de mim mesma"...
Ivanilde Araújo - Aprendiz do ateliê de Dança Contemporânea da Fábrica de Cultura Cidade Tiradentes
FERNANDO PESSOA EM MOVIMENTO
Desfrutem um pequeno registro do encerramento do ateliê de Dança Contemporânea da Fábrica de Cultura Cidade Tiradentes, o processo se desenvolveu a partir da inspiração poética da obra de Fernando Pessoa.
“Não digas nada! Nem mesmo a verdade. Há tanta suavidade em nada se dizer. E tudo se entender...” (Fernando Pessoa). E tudo se sentir por meio do movimento que atravessa estes corpos cotidianos, de pessoas comuns que ao mesmo tempo dialogam com o universo da arte contemporânea. Transformando limites em possibilidades. Palavras em movimento. Poesia em dança. Preenchem o silêncio com suas histórias e caminham em direção a si mesmas.